Água Parada pode dar Dengue

Setembro 12, 2008

Clayton Leme

 

 

“E tem o seguinte, meus senhores: não

 vamos enlouquecer, nem nos matar,

 nem desistir.Pelo contrário: vamos

 ficar ótimos e incomodar bastante ainda”
Caio Fernando Abreu

 

 

 

            Permitam-me que eu peça desculpas pela interrupção. Eu, como muitos de vocês também aprecio o conforto da rotina diária, a segurança familiar e a tranqüilidade da repetição. Gosto delas como qualquer outro, mas hoje resolvi que deveria remexer na água, olhar os vasos que podem estar acumulando água da chuva e sendo ambiente propício ao desenvolvimento de larvas indesejáveis. Então acredito que seria bom tomar um tempo das suas vidas diárias para sentar e conversar, existem é claro aqueles que não querem que falemos, mas a eles ofereço a nossa escrita, um modo diferente de comunicação e de movimentação do oceano infinito das idéias.

            Hoje quero chamar a atenção das pessoas para quem me coloco, falo aos alunos do Curso de Dança da Faculdade de Artes do Paraná, e qualquer pessoa que se identifique com as questões aqui levantadas. Especificamente me dirijo ao Curso de Dança devido à falta de compreensão de que as palavras lançadas em textos anteriores eram para eles, passaram despercebidas por muitos, acreditando não saberem para quem eram as mal traçadas linhas. Pura ingenuidade ou descaso ideológico. Mas vamos ao que realmente possa interessar a todos.

            Existem assuntos e decisões prestes a serem tomadas dentro do Departamento de Dança que interferem decisivamente dentro das salas de aulas e na vida de muitos alunos desta instituição de ensino, que acreditamos não estar claro para a maioria deles, por este motivo vamos nos colocar aqui para chamar a atenção dos alunos para que se posicionem e fiquem de olhos bem abertos para pessoas que pensam representar os territórios particulares de suas casas. A ausência da compreensão do que é representar, neste caso o corpo discente, nos faz tomar medidas mais específicas diante do órgão ou departamento responsável em gerenciar tais decisões. Ato de rebeldia? Não! Vontade de construir e fazer parte das questões que são relevantes ao Curso e aos alunos que fazem parte dele. Mas assim seremos vistos e nomeados pelos velhos e longos discursos que não modificam e não querem modificar em nada a realidade. Acreditam que o poder da transformação se encontra nas suas doces e frágeis mãos, puro engano. A vida anda, o tempo segue comendo tudo de maneira voraz, e não pede licença para passar, traz a modificação, puxa os tapetes dos mais resistentes. Algumas questões, pensamentos e idéias de corpo dentro desta instituição precisam ser vistas com outros olhos, pois o conceito já se alterou, os corpos que caminham e fazem aulas nesta instituição já não são os mesmos, não aceitam mais ser tratados como objeto inanimado, sem vontade, desejos e histórias. Histórias estas que não são deixadas de lado a cada aula que se inicia. Fazem parte sim de um contexto que são os nossos e de muitas outras pessoas.

            É importante não nos esquecermos que falar do Curso de Dança não é algo tão simples, precisamos lembrar que antes de afirmar que o curso precisa disto ou daquilo, é necessário lembrar que “nós, os alunos” somos o Curso, as pessoas, e não as salas de aulas ou as vontades docentes. Acreditar que ignorar esse fato pode trazer tranqüilidade ou resolver toda e qualquer problemática é ingenuidade, pensar que basta a minha vontade para tomar e fechar uma decisão é algo enganoso. Não é mais assim que o ensino é construído ou organizado em nosso país, pelo menos não no ambiente das universidades, lugar de produção de conhecimento, lugar de pessoas que pensam, porque por debaixo das questões levantadas, das solicitações de alunos há mais do que infantilidade, banalidade ou rebeldia. Por baixo dessas questões existem idéias e idéias são à prova à falta de diálogo, elas invadem os espaços, tomam conta das instituições, dos gabinetes, alteram e anulam assinaturas e vontades que não tem nada a ver com a realidade.

            É ao senhor diálogo que dedico este texto, em honra às férias que ele parece ter tirado deste lugar, e em reconhecimento ao impostor “dirigismo” e “falta de vontade” que ficou no seu lugar. É hora de acordar! Chega de hipocrisia e falta de entendimento de que o assunto é comigo, ele que não vai inundar e estragar os móveis da minha casa. Vamos vasculhar os vasos e tudo que pode acumular água parada, pois chega de dar casa para larvas indesejáveis que só querem sugar confortavelmente o que o mundo pode oferecer. Água parada pode dar Dengue!

Uma resposta para “Água Parada pode dar Dengue”

  1. dancafap disse

    pois é já esta mais do que na hora do BOM e VELHO diálogo voltar a nos visitar no nosso curso, só assim é que podemos percebem que é caminhar juntos.
    Vascular nossos vasos só não vale a pela e sim vascular os vasos dos outros para saber sim se pensamos juntos, e onde queremos chegar com tudo isso, lembrando que é para o bem de todos e não de uns e outros.

    Peter Abudi

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