“Um belo dia resolvi mudar,
…agora só falta você…”
Rita Lee
Após uma semana do término do I Simpósio e IV Mostra de Dança da Fap, ainda é possível sentir na pele, no ambiente e nos corredores os tão falados processos de reflexão. Por mais que se discuta sua eficiência de comunicação e de atração dos novos eleitorados, tudo está no corpo, inclusive, os questionamentos e atualizações de conhecimentos. Não há como negar. Depois de refletir e ouvir muitos comentários resolvi, aqui, realizar uma experimentação para poder ampliar o exercício de reflexão com os companheiros da Dança que se disponibilizam a chegar ao final deste texto.
Sempre que chegamos próximo do grande exercício reflexivo chamado Mostra de Dança da FAP, podemos perceber que corpo discente e corpo docente estabelecem territórios bem distintos para (não) acompanhá-la. Este fato se repete, no mínimo, há três anos, considerando que estou, hoje, no terceiro ano. Isso se deve ao fato, segundo comentários, (não) formais, de que tudo acontece por conta de uma palavrinha que incomoda e muito a semana (vida) de muitas pessoas; “contemporâneo”. É algo simples. Proponho que troquemos a palavra “contemporâneo” por “atualizado”, assim, talvez, possamos ampliar seu alcance e maior compreensão.
Reflita comigo, se você estivesse condenado a morrer devido a uma doença, e estivesse deitado em uma mesa de cirurgia, com médicos prontos ao seu redor para cumprir o papel que lhes cabe me responda: Que tipo de conhecimento sobre o corpo você gostaria que estes médicos tivessem? Seria talvez atualizado? Pois é, agora, quem sabe, possamos iniciar o exercício de reflexão. As questões que geram inquietações dentro do Curso de Dança da Faculdade de Artes do Paraná estão diretamente ligadas a este tipo de pensamento. Alunos e Professores despreparados buscam encontrar territórios utópicos para oferecer aconchego às suas idéias. Lugares de estabilidades imaginárias para algo que não pára de se atualizar no tempo e espaço: O Corpo.
A idéia de refletir o corpo atualizado nada tem a ver com uma crítica ou desejo de minimizar a importância de uma técnica específica, mas sim, sobre seus modos de organizar e entender este corpo. Se levarmos a reflexão para a área de ensino, podemos nos lembrar de como as crianças eram ensinadas na década de 70. Será que estes métodos ainda são utilizados? Se considerarmos as questões conceituais talvez a resposta seja sim, mas se olharmos para as tecnologias utilizadas para que novos modos de ensino possam se estabelecer, encontraremos milhares de outras possibilidades de organização no ensino formal, tudo visando a maior eficiência e coerência com as discussões de seu tempo. Tratamos com crianças do século XXI, onde as relações indivíduo-ambiente-tarefa se complexificam cada vez mais.
Na Dança, esse mesmo tipo de atualização deve acontecer. Compreender o corpo sob outros parâmetros pode ampliar o exercício de discussão e reflexão, mas para que estes parâmetros possam se estabelecer, precisamos ter maturidade, nem precisa ser suficiente, mas precisa ser verdadeira. Aquela que contempla respeito, atenção, disponibilidade, desejo de aproximação do que é diferente, do que é estranho, do que está a minha frente, etc. Não se trata de esquecer conquistas históricas, mas de suas atualizações no mundo, pois não vivemos isolados. O conhecimento é elaborado em todos os cantos do mundo e de diferentes modos, fugindo das elaborações causais.
Hoje, dia 05 de outubro de 2008, às 8h30 da manhã, escolhi meus candidatos, meus possíveis representantes municipais. Pude refletir sobre minhas escolhas, sobre a maneira como as coloco ou apresento ao mundo. Escolhi ter as relações claras, dizer as coisas que penso com maturidade e ter, acima de tudo, minhas ações pautadas na responsabilidade. Quando colocamos algo no mundo, temos responsabilidades sobre elas, e, talvez, você esteja me perguntando o porquê destas questões e quais relações estabelecemos com o assunto discutido? Todas! Segundo Brecht, a pior ignorância é a do ignorante político. É deles que nascem as crianças abandonadas nas ruas e todos os tipos de desigualdades, pois deixam as decisões nas mãos de uma minoria, que nem sempre dão conta de equacionar todas as questões necessárias à permanência de todos. No mundo temos bilhões de pessoas, trinta são jogadores de futebol, vinte são top models, e uma única é você. Nesta equação de equilíbrio, por mais que se possa parecer equivocada, não está. Existem coisas que só cabem a você realizar, refletir, discutir, contribuir, modificar, se disponibilizar. Escolhi aqui, fazendo parte das relações claras que quero estabelecer, nomear as idéias, relações e ações, por isto, cito professores do departamento de Dança que, ainda, não se deram conta de que estamos em uma faculdade, que não temos uma produção acadêmica eficaz, e que isso interfere no tipo de formação dos alunos que por aqui passam, no tipo de discussões, muitas vezes, medíocres, entenda-se aqui esta palavra como algo mediano, produzindo, talvez, “médicos” com conceitos corporais desatualizados para atuarem no mundo. Não lidamos com o ensino informal. Somos os pensadores da Dança no país. O que seria um ambiente acadêmico? Vocês são responsáveis dentro da instituição em estabelecer o ambiente favorável para esse tipo de discussão. Alunos de um primeiro ano que iniciam uma vida acadêmica onde, sequer, se disponibilizam a freqüentar uma semana de aulas com outros formatos. Será que ainda não perceberam que o prédio e as discussões não se equiparam aos das academias de ensino em dança informais da cidade? Segundo ano que ainda não se permite se envolver com um pensamento atualizado de corpo debatido dentro da instituição, um terceiro ano que ainda não percebeu que se forma em um ano e não se permite sequer escrever algo com responsabilidade, propondo algo diferenciado e tendo responsabilidade sobre a execução de sua proposta, e por último um quarto ano que não percebeu ainda que se desliga oficialmente da instituição em menos de três meses e ainda reproduzem determinados modos de agir de um primeiro ano. Todos estamos nos perdendo dentro do processo, mas só cabe a nós mesmos nos encontrarmos, termos disponibilidade de nos procurarmos. Portanto sugiro aqui, que se estabeleça uma rede de trocas eficientes, de pessoas que se responsabilizem por seus posicionamentos, participação nas ações elaboradas de modos colaborativos no ambiente acadêmico do Curso de Dança.
O curso oferece inúmeras ações que podem auxiliar em nosso desenvolvimento, Entrenósoutros, Lugar, Universidade sem fronteiras, Pic, Mostra de Dança da FAP, Grupo de Dança da Fap, entre outros. Se você não consegue enxergar possibilidades de ação dentro destas propostas, se responsabilize, crie possibilidades, converse com um orientador e proponha uma idéia.
Eu, Clayton Leme me coloco dentro destas questões e me responsabilizo pela escolha clara de escrever este texto. E você?